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O padrão estético da beleza: breve reflexão psicanalítica e sociológica sobre essa construção sociocultural e histórica da sociedade pós–moderna

Danielle Emboaba

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Nós, seres humanos, sempre buscamos ou procuramos prazer, algo que efetivamente nos satisfaça de quaisquer formas.

E por obvio, nem sempre tal busca se consolida. Em regra, esse movimento da busca pelo prazer tende à frustração, o que acaba por nos colocar numa masmorra, e que por conta de vários fatores, tomou proporções sociais maiores, não mais só com esse ou aquele indivíduo, mas de forma coletiva como um determinado momento histórico - o nosso momento histórico.

Conforme Cole e Scribner (1998), citando Marx, ”mudanças históricas na sociedade e na vida material produzem mudanças na natureza humana (consciência e comportamento)”. A partir daí abstraímos que a tal busca pelo prazer, no caso por estar dentro de padrões estéticos pré-concebidos, trata-se de uma mudança problemática do comportamento, não só no indivíduo, mas também como algo de dimensão coletiva. Será que é requisito para se ter momentos de felicidade, para se ter uma sociedade feliz tais buscas? O que é de fato a busca do prazer a partir dos padrões estéticos de beleza ditados pela nossa sociedade pós–moderna? Em que medida os ditames dessa busca do padrão assolam social e psicologicamente o indivíduo? Quanto a contribuição teórica psicanalítica e sociológica para compreensão desse fenômeno produzido sócio–histórico e culturalmente? São possíveis superações dessas precariedades?

Compartilhando nossas experiências, teóricas e práticas, como psicóloga, podemos dizer que quando em realização de um dos trabalhos, que era o de recrutar pessoas com algum tipo de deficiência e propiciar sua inserção no mercado de trabalho, acabamos por observar muitos detalhes, pormenores bastante sensíveis. Como exemplo, sempre que uma mulher ou um homem relativamente jovem, com algum tipo de deficiência, se apresentava, com certo padrão de beleza, escutávamos a seguinte fala dos colegas de trabalho “Nossa! Nem parece deficiente! É tão bonita (o)”. Nossa reflexão, a primeira que se faz aqui, é que esta fala não raras vezes, trazia uma conotação velada de que o atributo humano “deficiência” não condizia com a condição de ser “belo (a)”. Por esta lógica, do imaginário sociocultural e histórico do nosso tempo, podemos ter que a pessoa com deficiência não se enquadraria ou não teria chances de se enquadrar no belo, no estético, colocando o “defeito” como algo antagônico a esse “esteticamente belo”.

Assim, diante do que nos fizemos entender dentro desse contexto sociocultural de concepções, tão veladas em um momento e tão explicitas e arraigadas noutros, mas sempre presentes, podemos suscitar um questionamento subjacente, o da ética no nosso contexto social atual, o da moral dentre a nossa comunidade, o de quanto a reflexão pode nos espantar, nos insensibilizar frente esta construção humana tão precária - do “belo” versus “deficiente”, da pessoa com deficiência.

Sabemos que o modo de olhar do ser é formado dentro do grupo cultural no qual ele vive. Perpassado pela cultura, o olhar assume valores próprios do modo de como se viver durante a “produção” de uma vida. Não considerar questões como essa é correr o risco de uma interpretação presentista e progressista, ou seja, de interpelar o passado de modo descontextualizado, sem considerar os valores da época (MORI, pág. 205, 2009).

Ainda contextualizando o tema, para ilustrarmos uma das idiossincrasias da opressão do padrão estético da beleza, e em referência àquela minha experiência como recrutadora, citamos aqui a personagem Luciana, interpretada pela atriz Aline Moraes na telenovela da Rede Globo “Viver a vida”, de 2009. Luciana é uma jovem muito bonita, cuja beleza eurocêntrica, sonha em ser modelo famosa e, fatalmente, no auge da carreira, por volta de 30 anos de idade, sofre um acidente, tornando–se tetraplégica e cadeirante. Após essa construção trágica do “destino” na ficção, a personagem destitui a beleza de si mesma, como não mais merecedora desse atributo na condição de deficiente física. Analisando essa circunstância, a tal Luciana passa a não se reconhecer no próprio corpo “deficiente”, já que a beleza lhe foi arrebatada ao acaso (MANOEL, 2009). Outra idiossincrasia quando aos padrões opressores estéticos do corpo, um pouco mais explícita é a situação de fato na qual a mulher é oprimida a se preocupar com o “belo” corpo e rosto “da outra” fazendo valer, inclusive, o discurso popular propagado veementemente de que “a mulher se arruma para outra mulher, e se despe para o homem”.

Nessa dinâmica percebida, convergem–se banalidades e ou futilidades culturais de todas as sortes, visto que na nossa sociedade - na brasileira, por exemplo - podemos presenciar provocações, competições, compulsões estapafúrdias, montagem de grupos em redes sociais, através dos quais inutilmente se compartilham imagens do que cada uma come, das suas angústias irrelevantes, do quando degustam alimentos considerados por elas como muito calóricos, ou, quando postam aquele produto cosmético burguês que se comprou e que é o “sonho de consumo”, o fato de “seguirem” pessoas famosas, de blogueiras em Instagran e Snapchat acompanhando tudo sobre o mundo fitness, as tendências e o que devem fazer em relação ao corpo, qual a dieta do momento, quais os melhores profissionais da área, qual academia é a melhor, qual o melhor treino, e assim por diante.

Em síntese, é de se perceber neste contexto, uma festa de ostentação fútil burguesa, que virou tema de músicas, que têm sido cantadas, com sucesso no Brasil, como músicas do gênero funk ou sertanejo universitário, ainda que sejam veneradas pela massa social mais desprivilegiada socioeconomicamente.

Pergunta–se: diante deste contexto das relações sociais atuais em que se acirram os interesses de um capitalismo selvagem, com consequências teratológicas no seio da sociedade pós–moderna, será que mulheres e homens, fazem isso por que realmente desejam estar bem consigo mesmos, ou fazem por pensar que deve ser assim sempre, que é necessário mostrar para “o outro” que também se consegue, caso contrário se sai do padrão, se quebra o combinado com os amigos, decepciona os pais, o cônjuge, os amigos e a si próprio?

Hoje, não é difícil observar um grupo de mulheres reunidas aprofundadas nessas tantas questões e informações, mas cada uma segue uma linha nutricional diferente, cada uma tem sua blogueira ou famosa preferida para dar dicas diárias, cada uma viu ou leu algo na mídia diferente sobre o mesmo assunto. Realidade essa que faz com que nos acreditemos nisso fielmente, que aquela informação está correta e que ela pode começar a seguir e sugerir.

Observemos que a compreensão desse fenômeno, dessa busca pelo belo, pelo corpo aceitavelmente perfeito, exemplificado neste texto com aquela tentativa de descaracterização da pessoa deficiente, não pode passar ilesa pelo olhar mais atento de quem tem o dever de reconhecer que o problema urge de ser encarado como algo que está profundamente enraizado na sociedade e respectiva cultura. Ou seja, é importante se compreender que a Psicanálise não se aparta, não se desassocia dos fenômenos sócio–histórico e culturais. Pelo contrário, ela faz deles um dos seus pilares fundamentais, dos mais importantes, para a atuação do psicanalista frente às precariedades humanas geradas num determinado contexto histórico – no caso, no nosso contexto histórico. Não dá para se dissociar fatos do cotidiano da visão sistêmica que se deve a uma academia da importância da psicanálise.

Por razões que se suportam, baseadas na nossa realidade, precisamos compreender também por qual viés a mídia influencia a sociedade, como as instituições diversas, órgãos e entidades, com suas estruturas e processos de funcionamentos, têm atuado sobre nossos problemas coletivos. É plenamente possível interpelarmos se estas estruturas sociais têm seguido uma tendência lógica para alcançar seus objetivos mais obscuros, lógica e tendência esta conceituada pelo dicionário inglês Oxford por meio do termo “pós–verdade‟, considerado como a “palavra do ano” (FERNANDES, 20016).

De fato, não podemos negar, em certa medida, que as formas como as estruturas sociais têm interferido no âmbito social e cultural, convergido no sentido desta “pós–verdade” - em âmbito mundial. De acordo com Fernandes (2016), a “Pós–verdade” é, em resumo, a mentira entronizada como expressão da verdade. Pós–verdade é um adjetivo, comunica o dicionário. Definiu Oxford que a "pós–verdade" se dá quando fatos objetivos (a verdade possível) valem menos para formar opiniões do que "apelos à emoção e à crença pessoal". Ou seja, ocorre quando uma mistificação, uma mentira bem embrulhada é vendida e consumida como se fosse uma "verdade".

Esse tema é polêmico, justamente porque “os padrões sociais” se pautam nos critérios construídos pela “pós-verdade”. Dicotomicamente, assim como em nossa cultura se concebeu que em matéria de amizade “o que importa não é quantidade, mas sim qualidade”, se concebeu também que em matéria de estética da beleza “não existe o certo e o errado, mas o diferente”. No entanto, a mesma regra não é aplicada para todos os diferentes – só para os diferentes interessantes ao capitalismo. De fato, na cultura pós–moderna “o diferente” tem sido intolerado e as diversidades ou diferenças humanas são postas à prova. Criam–se também subgrupos marginalizados com base na perspectiva deste padrão estético ditatorial da beleza. Os subgrupos marginalizados podem ser representados pelo esquema abaixo.

 

1. se for pobre;

2. se for pobre e negro;

3. se for pobre, negro e gordo;

4. se for pobre, negro, gordo e baixo;

5. se for pobre, negro, gordo, baixo nordestino;

6. se for pobre, negro, gordo, baixo, nordestino e analfabeto funcional

7. se for pobre, negro, gordo, baixo, nordestino, analfabeto funcional e brasileiro

8. se for pobre, negro, gordo, baixo, nordestino, analfabeto funcional, brasileiro e homossexual etc.

 

Numa lida menos atenta, pouco analítica sobre os aspectos dos recursos estilísticos, linguísticos, histórico–cultural e social e literário do poema “Receita de mulher” (Rio de Janeiro, 1959), do poeta modernista Vinicius de Moraes, poderíamos considerar apenas como sendo um certo reforço lógico dominante do padrão de beleza - notadamente, no primeiro e segundo versos dessa, transcrita, estrutura poética.

 

RECEITA DE MULHER (Vinicius de Moraes)

1. As muito feias que me perdoem

2. Mas beleza é fundamental. É preciso

3. Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso

4. Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture

5. Em tudo isso (ou então

6. Que a mulher se socialize elegantemente em azul,

7. Como na República Popular Chinesa).

8. Não há meio–termo possível. É preciso

9. Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito

10. Tenha–se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto

11. Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.

12. É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche

13. No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso

14. Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas

15. Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços

16. Alguma coisa além da carne: que se os toque

17. Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai–me dizer–vos

18. Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro

19. Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e

20. Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem

21. Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então

22. Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca

23. Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.

24. É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos

25. Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas

26. No enlaçar de uma cintura semovente.

27. Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras

28. É como um rio sem pontes. Indispensável

29. Que haja uma hipótese de barriguinha.Em seguida,

30. A mulher se alteia em cálice, e que seus seios

31. Sejam uma expressão greco–romana, mais que gótica ou barroca

32. E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.

33. Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal

34. Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!

35. Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas

36. E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem

37. No entanto sensível à carícia em sentido contrário.

38. É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio

39. Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)

40. Preferíveis sem dúvida os pescoços longos

41. De forma que a cabeça dê por vezes a impressão

42. De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre

43. Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos

44. Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face

45. Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior

46. A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras

47. Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes

48. E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e

49. Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão

50. Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta

51. Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.

52. Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos

53. Ao abri–los ela não mais estará presente

54. Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá

55. E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber

56. O fel da dúvida. Oh, sobretudo

57. Que ela não perca nunca, não importa em que mundo

58. Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade

59. De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma

60. Transforme–se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre

61. O impossível perfume; e destile sempre

62. O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto

63. Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina

64. Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição

65. Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável. (Rio de Janeiro, 1959)

 

Mas o próprio Vinicius de Moraes, certa vez, parece–nos desconstruir e ou romper com aquela lógica sobre o padrão dominante de beleza ao confessar que “a beleza para mim é importante. Eu amei feias lindas, feias interessantes. Namorei muita mulher que eu considero esteticamente de nenhuma beleza, mas eram mulheres interessantes, mulheres que tinham alguma coisa”. (Portal G1, Edição do dia 07/02/2013).

Na clinica psicológica, é grande o índice de queixa relacionado ao corpo, questões com a autoestima, transtornos alimentares, culpa, angústia, questões relacionadas à busca do corpo perfeito, até mesmo a depressão por não se aceitar. Demanda essa que varia de acordo com o que é colocado como importante para cada um.

Porém, o que nos faz pensar é o quanto essa necessidade é do indivíduo ou do outro. Temos que mostrar essa beleza para quem? Para nós mesmos ou para as pessoas? A quem devemos agradar de fato? A mídia tem uma absurda influência nisso, para não dizer total influência, assim como a sociedade, a cultura. A cobrança social e a influência da mídia fazem com que meninas, mulheres, homens e meninos muita das vezes se sintam na obrigação de fazer parte desse contexto. São ridicularizados e oprimidos caso não aceitem ou sigam uma dieta especifica, uma tendência, um estilo que esta em evidência. Uma das grandes questões é que isso, muitas vezes, se torna numa luta constante, logo traz incômodo, desconforto, que priva, que remete a angústia e sofrimentos, pois nem sempre os resultados são alcançados, gerando toda uma frustração, dando inicio aos transtornos alimentares, às patologias, causando um grande mal–estar, como já supracitado (SEVERIANO, 2010; SLATER, 2002).

Vivemos tempos de mudanças ao piscar dos olhos. Concepções, relações/interações e objetos sociais são transformados muito depressa. A pós–modernidade caracteriza–se, dentre outros aspectos, pelo acesso em grande escala, e fácil, de infinitas informações. A imprensa midiática expõe a figura da mulher à fiel lógica construída pela própria cultura e em conformidade com a lógica do sistema capitalista, que sob a égide da sociedade de consumo, transforma o ato de consumir num verdadeiro negócio, principalmente pela propaganda. Nesse processo de inculcação/alienação, de introjeção dos ideais consumistas e ou capitalistas, as mulheres são induzidas a comprar e a viver de acordo com a perspectiva do ideal desejável na veiculação midiática, logo, influenciando comportamento e modo de ser do público feminino. (NASCIMENTO, 2012).

O homem pós–moderno vive eufórico e desenfreadamente para suprir suas demandas sociais, e nesse processo cessa seus desejos originais (legítimos!) em busca da segurança de uma felicidade ideal.

É por isso que no texto “O Mal–estar na civilização” (1930), Freud considera a forma de viver do homem como sendo um mal–estar oriundo da cultura, e a infelicidade causada pelo individuo e sociedade.

          Pensando na problemática de que os padrões de beleza trazem um mal–estar, que podem transmitir infelicidade, é importante compreendermos que, se o indivíduo não tiver de bem com seu corpo, se não tiver um bom trabalho, se não acompanhar tendências estéticas e de aquisição como um todo, se não tiver um amor conjugal, se não tiver filho, e assim por diante, não se enquadrar nesses parâmetros de felicidades certas, provavelmente sofrerá a sensação de que não será feliz.

Dantas (2011) lembra que Freud dizia que se mostrava intrigado acerca desta valorização da beleza pela civilização, ainda que esta não proporcionasse nenhuma utilidade. Sem ideias, os sujeitos se entregam às compulsões. Nessa urgência, qualquer espera causa desespero, qualquer empecilho que surja e atrapalhe a busca pela perfeição, como o não se enquadrar no padrão de beleza ditado pela mesma (DANTAS, 2011). Isso faz pensar nas situações de meninas desesperadas por uma dieta milagrosa em um curto espaço de tempo, na busca por medicamentos que prometem milagres e que acabam colocando a saúde em risco.

O homem “quer viver mergulhado em satisfações imediatas, buscando sensações que o façam esquecer-se das preocupações e ameaças futuras, é o estabelecer de sua organização de vida no presente, vivendo o momento atual e nada mais. Assim, o passado e o futuro não têm espaços na organização do seu cotidiano. Sendo o corpo o espaço onde se situa toda a ambiguidade existencial, a busca do corpo perfeito é tomada como tentativa de negar o futuro, pois é através do corpo que o tempo deixa sua marca”. Concordamos, (Castro 2007, p. 24), quando ela afirma também que "a preocupação com o corpo esbelto – sinônimo de corpo saudável – na contemporaneidade, pode ser compreendida como algo que diz respeito à condição do indivíduo na modernidade".

No cenário atual, o corpo torna–se facilmente lugar de concretização do bem–estar e do se parecer bem através da forma e da manutenção da juventude. Numa sociedade onde ser feliz muitas vezes está vinculado à aparência, ao status e ao sentir-se bem o tempo todo, o corpo torna–se objeto de constante investimento e preocupação. Atualmente, esse culto ao corpo se alimenta de uma lógica onde "ser belo é aproximar–se de um ideal, sempre determinado de modo universal, distinto do que é cada corpo, enquanto este, por sua vez, é considerado um ente particular e local" (DANTAS, 2011).

Para a Psicanálise, o corpo não é só uma anatomia biológica, mas sim uma anatomia própria e singular, construída por meio do cenário fantasmático que cada um faz. É um corpo que transcende o somático e que está articulado com a história do sujeito. Historicamente, a imagem da mulher se justapõe à de beleza e depois à de saúde, remetendo assim a fertilidade e a juventude.

No século XVI, o corpo era valorizado pela parte superior, pela delicadeza da pele, a intensidade dos olhos, a simetria dos traços. Já nos séculos subsequentes, o corpo passa ser valorizado a partir das partes inferiores, como pernas, quadris e cintura (SILVA, 2011).

Após inúmeras mudanças sócio-históricas e culturais a concepção sobre o corpo da mulher, hoje, está centrada na aparência ou na beleza como questão da saúde. Nas passarelas para a moda do vestuário, as imagens dos corpos que desfilam assumem a forma padronizada vigente e o lugar de objetos de desejo, desejo esse que permeia pelas mulheres. São muitas as ofertas para a mulher parecer diferente, mais bonita, mais desejável e ilusoriamente perfeita. Desta forma, podemos dizer que vivemos na era das imagens, na qual a perfeição estética do corpo é supervalorizada, e isso só se tornou possível graças aos veículos de comunicação atrelados ao consumo que se fortalece na cultura contemporânea (SILVA, 2011).

Baseado nestas estruturas, o que podemos considerar é que esse mal–estar, ao longo das décadas, foi modificado de acordo com a cultura, sob influencia da sociedade, com o poder da mídia fazendo parte da vida da mulher, compondo assim sua história, mexendo com seus desejos e pulsões, abrindo um leque para suas indagações, angústias, sob suas questões mais íntimas. Cabe, pois, uma reflexão sobre a questão dos padrões de beleza hoje estabelecidos, sobre o legítimo ou o culturalmente instituído que lhe causa mal–estar e sofrimento, sempre na busca de um ideal de felicidade.

Assim, com tantas opções de padrão de beleza, pode–se depreender e concluir que, a mulher pós-moderna vive um processo de inculcação por estar o tempo todo, incessantemente, na busca do “belo”, predeterminado sócio-histórico e culturalmente.

De fato, do ponto de vista da construção de uma concepção mais humanizada, que não tende ao radicalismo ou fundamentalismo sociocultural sobre a beleza, o importante é a base de parcimônia entre a beleza e o bem-estar, de modo que não cause sofrimento com mal–estar. O cuidar do corpo não pode passar de um limite, e a mídia e a sociedade como um todo não podem pretender o controle absoluto sobre os rumos de nossas felicidades - individuais e coletivas.

 

Danielle Emboaba CRP 06/111898
Psicóloga Clínica


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