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A VIDA MODERNA E A MIOPIA NAS CRIANÇAS

EDUARDO BUZOLIN BARBOSA

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Celular ou tablets. Não mais que duas horas, e sempre assistido

Miopia é uma alteração refracional do olho onde os raios de luz são concentrados à frente da retina. É o transtorno refracional do olho humano mais comum, afetando cerca de 30% dos adultos jovens dos Estados Unidos e Europa, e, cerca de 85% dos adultos jovens em países asiáticos – como Singapura e Taiwan.
Estudos recentes têm demonstrado um aumento da prevalência de miopia nos últimos trinta anos, e, a Organização Mundial da Saúde - OMS estima que a incidência mundial aumente de 25% para 50% até 2050. Isso tornou a miopia um tema de preocupação na saúde pública global. Juntamente com a catarata e a degeneração macular, a miopia é uma das causas mais importantes de deficiência visual - em todos os países. Em graus elevados, a miopia é associada a diversas comorbidades oculares que podem levar a cegueira, a um descolamento de retina, catarata prematura e glaucoma.
Classicamente, o risco de ter um olho míope é três vezes maior quando ambos os pais são míopes, embora na última década alguns genes e variantes genéticas foram identificados e pesam como motivo. Contudo, hoje sabemos que o desenvolvimento refrativo do olho não está apenas regulado geneticamente, mas sim que diversos fatores ambientais atuam conjuntamente na regulagem do crescimento ocular. E se tornou bastante provável, então, que os fatores genéticos e os ambientais são os que podem interagir para o desenvolvimento da miopia.

Vida ao Ar Livre
Pesquisas recentes têm evidenciado o efeito protetor que as atividades realizadas ao ar livre possuem na redução da progressão da miopia, em crianças na idade escolar. Isso ocorre porque, em tese, condições de exposição à luz natural aumentam a liberação de um neurotransmissor chamado dopamina, que reduziria o estímulo ao crescimento ocular. Um estudo australiano também mostrou que o importante era o tempo ao ar livre e que a participação em esportes indoor - futebol de salão, vôlei, basquete - não apresentava benefícios aos olhos. São necessários, porém, estudos de longo prazo que demonstrem a validade dessa tese, mas, se confirmada, pode indicar uma necessidade de mudança no estilo de vida e nas políticas escolares em todas as nações. Outra limitação encontrada nesses estudos foi a de que as atividades ao ar livre têm influência nas crianças mais jovens, não afetando a progressão miópica em crianças mais velhas.

VIDA MODERNA

O excesso de visão para perto também mantem relação com o desenvolvimento de miopia. Indivíduos com alto risco genético e que mantém uma carga alta de trabalho para perto - leitura excessiva, por exemplo - têm maior chance de progressão miópica. Essa hipótese foi levantada pela observação que aqueles com educação em nível universitário apresentaram maior risco de miopia, enquanto aqueles com apenas escolaridade primária tiveram um risco muito menor. Soma-se a isso o fato de que com o “excesso” de escolaridade também tem relação com a diminuição da exposição ao sol, uma vez que quanto mais estudam, mais ficam confinados, em ambientes fechados.

Os níveis mundiais crescentes de educação e o aumento do tempo de trabalho são também somados a proximidade e crescente uso de laptops, tablets e smartphones. Não existem estudos concretos que demonstrem uma clara relação entre o uso dos dispositivos e o desenvolvimento de miopia, mas claramente o aumento do número de horas em frente a dispositivos móveis reduz as atividades externas e aumentam o uso da visão de perto – estes dois fatores sim, já foram correlacionados cientificamente com a predisposição à miopia.

 

CRIANÇAS X TABLETS

Pergunta frequente nos consultórios oftalmológicos, se o uso de tablets e smartphones por crianças deve ser fortemente desencorajado pelos pais. Tem se observado o uso dos dispositivos móveis como forma de entreter a criança, sem dosar o prejuízo no longo prazo, e não somente do ponto de vista oftalmológico. Pediatras afirmam que ficar muito tempo entretido com a tela de um celular ou tablet pode ter relação com problemas comportamentais, com o atraso no desenvolvimento para a vida em sociedade. Consenso geral é de que a criança não deve ficar mais de duas horas utilizando esse tipo de aparelho e que o uso deve ser sempre assistido.

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E o que podemos fazer?
Hoje sabemos que crianças pequenas com indícios de progressão miópica podem ser tratadas com colírios de baixa dose de atropina na tentativa de diminuir a progressão, ou seja, se tornem menos míopes do que se tornariam sem o tratamento. Essa modalidade de tratamento não é universalmente aceita, mas vem ganhando adeptos ao redor de todo o mundo, especialmente após a Academia Americana de Oftalmologia - AAO publicar em 2017 diversas pesquisas sobre o tema. Porém, ainda não conseguimos prevenir efetivamente o desenvolvimento de miopia em crianças. 

Não podemos esquecer que a miopia, se diagnosticada e acompanhada corretamente, com um médico oftalmologista, pode ser corrigida de diversas formas e não ocasionar sequelas visuais no paciente. O ideal seria iniciar o acompanhamento infantil antes mesmo da alfabetização, uma vez que no exame oftalmológico de rotina conseguimos identificar as diversas alterações refracionais e indicar ou não a necessidade de óculos para correção. Ainda, na consulta oftalmológica podem ser identificadas outras patologias oculares, congênitas ou as que surgem durante a infância.

Com o passar da idade, as opções para melhorar a visão dos pacientes míopes se agregam de diversos reforços. Além dos óculos, podem ser indicadas, também, lentes de contato ou, até mesmo, correção cirúrgica a laser. 

As lentes de contato são indicadas para a adolescência, geralmente após os quinze anos, uma vez que é necessário um cuidado maior com a higiene, para evitar problemas decorrentes do mau uso. O uso em crianças deve ser desencorajado, exceto em casos muito específicos. 

Já as cirurgias a laser necessitam que alguns critérios sejam um pouco mais delineados, tais como idade próxima aos vinte e cinco anos, estabilidade do grau há pelo menos um ano, e, não apresentar alterações oculares que contraindiquem o procedimento. Ainda, são necessários alguns exames complementares, que vão avaliar a curvatura e a espessura da córnea, para descartar qualquer contraindicação que o paciente possa apresentar.

Em todo caso, a correção da miopia, quando acompanhada corretamente pelo médico oftalmologista, em crianças e adultos, irá proporcionar todos os benefícios possíveis, com uma visão mais adequada às reais necessidades do paciente.


eduardobuzolin bio

DR. EDUARDO BUZOLIN BARBOSA
CRM 151.527
Residência em oftalmologia pela Faculdade de Medicina de Rio Preto - FAMERP
Fellowship em Catarata e Cirurgia Refrativa pela UNICAMP
Fellowship em Transplante de Córnea pela UNICAMP
Título de Especialista em Oftalmologia pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e Associação Médica Brasileira (AMB)
Membro da Sociedade Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa (BRASCRS) e da American Society of Cataract and Refractive Surgery (ASCRS)