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Alimentos com glúten e ou lactose. Comer ou não comer?

Mariana Moretti Barbosa

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Uma alimentação que garanta qualidade de vida pede mais do que a moda dita. Pede informação mais técnica sobre esses alimentos

Alimentos sem glúten e sem lactose virou moda. “- Nossa, tem glúten, não quero”. “Lactose? Nem pensar!” Mas, afinal, será que sabemos direito o que é? Talvez muitas pessoas possam consumi-los! São saudáveis ou não? 
Necessariamente temos que contextualizar, via indivíduo, para podermos chegar a explicações técnicas. O glúten é uma proteína presente no trigo, malte, centeio, cevada e aveia (em menor quantidade). É ele que confere a consistência fofa aos produtos industrializados - especialmente em pães, bolos, biscoitos e massas. Pode estar presente na cerveja, requeijão, shoyo, kani-kama, sorvetes, etc. O consumo desta proteína é proibido aos portadores da doença celíaca, caracterizada por uma intolerância permanente ao glúten com possível atrofia total ou parcial da mucosa do intestino delgado proximal, além de má absorção de nutrientes. Para que a doença se manifeste, além do uso do glúten, é necessária a presença de outros fatores, genéticos, imunológicos e ambientais. Os efeitos indesejáveis do glúten não são de exclusividade dos celíacos. Amplos estudos sobre o tema apresentam cada vez mais resultados problemáticos com a utilização do glúten e vão muito além daqueles expostos pelas “dietas da moda”. 
O glúten é uma fração proteica que pode não ser bem digerida por alguns indivíduos. Na falta dessa capacidade natural de digerir este nutriente desenvolve-se uma hipersensibilidade via alimentação. As consequências causadas pela hipersensibilidade ao glúten podem se manifestar como inchaço abdominal, diarreias, constipações, hiperatividade, dores de cabeça, rinite, asma, artrite, prurido, dermatite, acne e alterações de humor com ansiedade, depressão e até mesmo a síndrome do pânico e o agravamento da tensão pré-menstrual. Essa sensibilidade ao glúten pode elevar moderadamente as enzimas hepáticas. Pode chegar à uma hepatite autoimune, uma disfunção intestinal com doenças inflamatórias intestinais, ou, desordens no sistema reprodutivo com possibilidade de abortos espontâneos e nascimentos prematuros. A hipersensibilidade também pode prejudicar a entrada de energia nas células, ou seja, a energia consumida passa a não ser aproveitada gerando indisposição e acúmulo desta energia em forma de gordura.
Um elevado consumo de proteínas de difícil digestão, como é a do glúten, pode desencadear problemas nos pontos mais sensíveis do seu organismo. Onde estão os pontos mais fracos no seu organismo? Se forem os rins, a pessoa poderá desenvolver nefrites. Cérebro? A pessoa poderá ter disfunções cognitivas, depressão, ansiedade, anorexia nervosa, transtorno do déficit de atenção, epilepsia, etc. Nos ossos? Poderá apresentar osteopenia e osteoporose! Não há um único sistema corporal que está isento de sofrer após a sequência inflamatória provocada pela sensibilidade ao glúten. A diminuição ou retirada do glúten do cardápio é sempre bem vinda. O glúten não é uma proteína de alto valor biológico, isto é, não possui todos os aminoácidos essenciais. Por isso, vivemos muito bem sem ele. Escolhas como esta colaboram com o equilíbrio do organismo, especialmente para pessoas com pré-disposição de sensibilidades ao glúten. Sua ausência diminui os processos inflamatórios, melhora a absorção dos micronutrientes e abre caminho para o equilíbrio do peso. Pessoas diagnosticadas como celíaca, com hipersensibilidade ou mesmo àquelas que queiram diminuir a ingestão do glúten, podem substituir o trigo, a aveia, a cevada, o centeio e o malte por arroz, milho, quinoa, amaranto, batata, mandioca, inhame, dentre outros.

E a lactose?
O que fazemos com ela?

A lactose é o açúcar presente no leite. Quem adora esse alimento e acha difícil viver sem ele deve prestar muita atenção aos sinais e sintomas que o próprio corpo expõe. Ele é capaz de nos ajudar a decidir entre comer ou não comer. Se conveniente ou não. Segundo a Associação Americana de Gastroenterologia e Nutrição, oitenta e cinco por cento da população adulta tem algum grau de intolerante à lactose. É a impossibilidade desses organismos, de digerirem a lactose devido à deficiência ou falta da enzima lactase. Dai discorrem diversos sintomas - a diarreia é um dos mais comuns. 
Diferentemente da alergia onde o sistema imunológico reage às proteínas presentes no leite de vaca entendendo que essa proteína é um corpo estranho e que precisa ser combatida. Produz anticorpos para reagir à presença dessas proteínas e desencadeia a reação alérgica podendo se manifestar com diarreia, edema de glote, urticária e febre. 



De acordo com a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) a intolerância pode acontecer a qualquer momento, inclusive na infância. Pode se agravar na vida adulta. Nos casos de alergia, é comum uma predisposição genética, hereditária ou mesmo ambiental. Esse também tem sido muito mais do que um tema polêmico, mais um dos problemas que acometem boa parte da população em escala mundial. Muitos indivíduos têm associado os mais diversos desconfortos ao consumo do leite de vaca. 
Como o leite, que é tido como um alimento saudável pode causar tantas complicações à saúde? Ao analisarmos todas estas questões em conjunto, perceberemos que o problema mais expressivo não é o consumo da lactose ou do leite e sim o alto consumo – hora consciente, hora não – desse leite ou de seus derivados. O desequilíbrio orgânico vem então pela quantidade. Facilita reações alérgicas, intoxicação e transtornos funcionais, inclusive a própria osteoporose.
Tempos atrás o consumo do leite fazia parte da alimentação das pessoas, mas em pequena quantidade - aproximadamente um copo por dia. Não existiam tantos produtos industrializados, a alimentação era mais natural e rica em nutrientes, era mais ritualizada, priorizada. Convivíamos com muito menos estresse físico, mental e emocional. Tínhamos um equilíbrio maior que colaborava com a defesa do nosso organismo frente a substâncias estranhas. Por outro vértice, a qualidade do leite também sofreu modificações. Uso de recursos pró-produtividade como hormônios, antibióticos, pasteurização, manutenção de bactérias resistentes aos antibióticos, etc. Por ser uma fonte de proteína e gordura com preço acessível passou a ser consumido em maior quantidade junto com seus derivados industrializados. Sem, na maior parte das vezes, sabermos que os mesmos estão presentes na composição do leite. A intolerância ou alergia a lactose é um sinal que o problema é maior – como quando se vê a pontinha de um iceberg. 
Centenas de estudos demostram que em países onde o consumo de laticínios é alto, também são altos os índices de obesidade, câncer e osteoporose. Já em países com baixo consumo - Japão, China e outras regiões asiáticas - se tem menores índices destas doenças. Quanto mais cedo se estabelecer o diagnóstico, menores serão as consequências. O importante é ter um acompanhamento com especialista capaz de fazer acompanhar o diagnóstico, assim como de um nutricionista que irá orientar qual a melhor conduta a ser adotada no caso individualizado. 
Para os indivíduos apaixonados por alimentos que possam conter lactose, e quando não presente a alergia, o ideal, para o equilíbrio orgânico é o rodízio destes alimentos com outras opções menos alergênicas tais como o leite de arroz integral, inhame, as oleaginosas (amêndoas, avelã, etc), o fruto do coco, etc. Evita-se a sobrecarga do organismo e proporciona diferentes nutrientes para as células. 
Uma dica: leia sempre os rótulos dos alimentos com atenção para se identificar as fontes, seja de lactose, glúten ou de outros alergênicos. Cuidado também com outras fontes, especialmente os adoçantes e as medicações. 
E a falta de cálcio, tão abundante no leite? Lembremos que a natureza é sábia e nos proporciona fontes de cálcio ainda melhores e mais biodisponíveis, plenamente eficazes e de fácil absorção pelos ossos, como vegetais verdes escuros (espinafre, rúcula, agrião, couve, bertalha, brócolis, etc.), frutas secas (damasco, passas, etc.), castanhas e sementes (nozes, avelã, amêndoas, semente de girassol, semente de gergelim e semente de melão), além do tofu e outros. 
A resposta para a longevidade com qualidade de vida está no exercício de hábitos alimentares com menor quantidade de produtos industrializados e seus aditivos químicos. Está no retorno ao consumo variado de alimentos mais saudáveis, presentes in natura. Precisamos adequar nossa alimentação ao nosso corpo, à continuidade da nossa saúde. Uns não podem ingerir o que outros moderadamente utilizam a vida toda! Muito além das dietas da moda, ou do poder ou não poder comer um alimento, o sucesso para uma vida equilibrada e cheia de vitalidade está na personalização dos seus hábitos alimentares, em função do seu organismo. Cada fase da vida pede uma meta alimentar muito particular. Cheia de equilíbrio e moderação. Um prato para uma boa vida, dia após dia.


 

Mariana Moretti Barbosa - CRN 3 23110
Nutricionista

(19) 3604.6740
Rua dos Cedros, 317, Jd. São Paulo – Americana